23.5.07

aula 10 o vai e vem dos assessores

Na minha opinião, o ponto da questão não está na ida de jornalistas para a assessoria de imprensa, está no regresso destes aos jornais.
O ex-assessor, agora jornalista, vai conseguir fazer o seu trabalho de forma imparcial? Acho difícil que uma pessoa que trabalhou durante anos com outra, estabelecendo uma relação de amizade e de proximidade, seja depois capaz de tratar com isenção essa mesma pessoa.

Os assessores tornam-se em muitas situações pessoas com muita responsabilidade, o lugar de assessor é um lugar de confiança pessoal.O assessor depende diariamente da confiança do político o que torna a actividade muito precária este pode ser substituído a qualquer altura, basta que para isso se quebre esta confiança, isto coloca o assessor nas mãos do político. O assessor de imprensa tem de fazer o que lhe é mandado, ainda que não coincida com aquilo que pensa, pois se não o fizer é despedido. O assessor está na mão do patrão.Para mim, a transferência para a assessoria de imprensa é uma mudança de carreira perfeitamente legítima mas no caso de um jornalista deve ser devidamente ponderada, porque me parece um caminho sem volta.
Concordo com a opinião de Rui Cádima quando diz que o ideal seria que na lei houvesse uma clara desmotivação do retorno à profissão dos assessores do poder. Uma reserva de seis meses continua a ser, no fundo, um convite à serventia política dos ditos "jornalistas".

Os jornalistas são, em geral, muito críticos relativamente aos seus pares que interrompem a profissão para exercerem funções de assessoria de imprensa. De facto, ser assessor de imprensa de uma personalidade ou instituição política, pressupõe um contrato, explícito ou implícito, entre assessor e assessorado, baseado em afinidades pessoais e políticas, que obriga o assessor a um dever de lealdade para com o assessorado.Ora, o contrato do jornalista é com os cidadãos e a sociedade, que esperam receber dele informação rigorosa e independente sobre o que acontece no mundo. Em troca da independência a que está obrigado, o jornalista é credor de confiança, credibilidade e autoridade, as quais lhe conferem uma legitimidade e um estatuto que o colocam acima de quaisquer interesses e inclinações, sejam eles de natureza pessoal ou política, respeitem a instituições públicas ou privadas.
Quando analisamos o caso deontologicamente não fica bem aos próprios jornalistas essa transição imediata.
Sendo a actividade de relações públicas uma actividade não regulamentada em Portugal, é normal existir esta situação de vai-vem. Qualquer jornalista pode desempenhar as funções de assessor de imprensa.
De acordo com o estatuto do jornalista (artigo nº3), o jornalismo só é incompatível quando exercido em simultâneo.
Esta lei, que proíbe uma conciliação entre as funções, não impede a mobilidade profissional nem prevê um período de quarentena que impeça o jornalista que venha de assessoria de incidir nas temáticas relacionadas com o seu cargo anterior.
Mas, esta situação coloca, também problemas éticos. Pois, será que alguém que trabalha como assessor de um determinado político, vai depois entrevistá-lo como jornalista? Será que não se encontra numa situação privilegiada em relação aos seus colegas de trabalho e tem mais conhecimentos que os outros não têm? É uma situação desleal para com os outros jornalistas.
Um antigo jornalista, agora assessor de imprensa, sabe o que os antigos colegas de trabalho querem e, por isso, cria mensagens apropriadas.
Sendo indiscutível a importância do jornalismo para a credibilidade da mensagem de relações públicas, é aos jornalistas que se recorre. O jornalismo é o campo de recrutamento preferencial dos assessores de imprensa.


“O responsável pelo serviço de imprensa deve ser um jornalista, trabalhando para uma empresa em vez de para um órgão de informação, sendo até preferível que já tenha exercido essas funções, visto tal experiência lhe trazer um conhecimento desejável das pessoas ligadas ao meio jornalístico”.(LAMPREIA, J. Martins, A Assessoria de Imprensa nas Relações Públicas, Publicações Europa-América, 2ª edição, pág.15)

O estatuto do jornalista não permite acumulação uma pessoa não pode ser ao mesmo tempo jornalista e assessor de imprensa. Há um problema de incompatibilidade. Em Portugal, os jornalistas não podem, assim, exercer, ao mesmo tempo, a assessoria de imprensa, em razão do conflito de interesses que pode emergir dessa situação. Por exemplo, se um assessor de imprensa assessora de manha determinada empresa e á tarde, no seu jornal, recebe informações que podem prejudicar essa mesma empresa, será que fará uma notícia lesiva para a empresa onde obtém parte dos seus rendimentos?Provavelmente, não.

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